Meros intelectuais (2)

21 de março de 2025 Off Por Funes Patos

Meros intelectuais (2) Por Adalberto Targino.

Texto extraído da coluna FUNES do Jornal A União publicado na data de 21/03/2025.

 

Devemos, desse modo, nos precaver dos intelectuais negligentes em suas pesquisas, impressionistas em suas observações e, particularmente, “dos tendenciosos em seus julgamentos”. Algumas teses e ensaios focalizam o óbvio e o ululante, engessados pela ideologização ou pela absoluta ausência de inovação e, pior ainda, pela excessiva vaidade e falta de independência.

A filósofa Marilena Chauí, em artigo no Jornal de Ciência da SBPC, de 20/11/2009, intitulado “Intelectual engajado: um ser silente ou animal em extinção?”, preleciona: “O projeto histórico moderno apostou na autonomia nacional das artes e do saber (…) determinante para o surgimento da figura do artista e do pensador independentes das instituições eclesiásticas,estatal e acadêmico-universitárias, com autoridade teórica e prática para criticar a ordem vigente”.

Em tese, por conseguinte, o desafio retórico do intelectual é resguardar uma perspectiva crítica sem parecer alarmista ou reacionário, plantando ideias aptas a reconfigurar grupos e amalgamar o campo político. Seguindo o adágio popular que “nada se cria, tudo se copia”, parafraseado de Lavoisier que dizia “na natureza nada se cria, tudo se transforma”, as produções intelectuais, em geral, inovam muito pouco. Algumas obras são mais importantes pelas citações ou notas de rodapé que pelo que escreve o autor, apesar da megalomania de alguns autores.

Daí que se faz oportuna a afirmação do eminente escritor Steve Fuller: “A personalidade paranoica sofre de um complexo de perseguição provocado pela megalomania, uma espécie de ‘macrocefalia’ que normalmente leva o intelectual a exagerar sua própria importância”. O intelectual paranoico julga-se o próprio deus do Olimpo, reencarnado, e como tal não perde tempo com os “seres inferiores”.

No entanto, Rachel de Queiroz — eminente, combativa e consagrada intelectual —, com extrema humildade, dizia: “Escrever é um martírio”. Também dizia: “Nunca reli uma página depois de escrita que me deixasse satisfeita”. Mais ainda, referindo-se às suas obras, afirmava: “Com tanto livro ruim no mundo, mais um ou dois não fazem diferença”.

Aliás, os grandes sempre são humildes e complacentes com os menos aquinhoados com a iluminação literária. Escritor sem carisma como Carlos Maul, da geração de Olavo Bilac, foi impiedoso, crítico e perseguidor dos modernistas, dentre os quais muitos se tornaram referência nacional, diferentemente do seu algoz.

O famoso dramaturgo Nelson Rodrigues, no início da carreira, foi espinafrado pelo crítico Bandeira Duarte, do jornal
O Globo. Nelson, todos conhecem, e Bandeira, quem é?

Dizia Montaigne: “Mais vale uma cabeça bem-feita do que uma cabeça bem cheia”. Formar o espírito é uma maneira de formar a vontade, visto que o fim da educação intelectual é, sobretudo, a formação do juízo (a aptidão lógica, o espírito de discernimento, o rigor no encadeamento das ideias, todos acompanhados do bom-senso, previsão das exceções, etc.). A análise genuinamente intelectual, portanto, livre e despreconceituosa, proíbe apontar um dos lados de capaz (apto) e o outro de incapaz (inapto). Todos, sem exceção, têm a sua verdade, a sua consciência e o seu valor personalíssimo, que convergem para a completude e não para se tornarem ilhas de autossuficiência. O debate sadio, no entanto, é o centro da atividade, o verdadeiro palco e contexto em que atuam os intelectuais despretensiosos.

Sei, entretanto, que certos intelectuais marqueteiros vendem a sua “obra” como é vendida a Coca-Cola que, mesmo sendo uma xaropada sem nenhum nutriente real, é aceita, consumida e aplaudida pelas massas.

Afinal, a propaganda é a alma do negócio. Os sofistas (escola grega de grandes sábios), há 2.500 anos são execrados como malandros e falaciosos. Mas a versão não corresponde à realidade dos fatos. Reza a história que o sofista Protágoras, combatido pela elite grega comandada por Sócrates, era um excepcional filósofo, autor da primeira gramática da língua grega, consultor literário e um dos pioneiros da implantação da linguagem escrita na Grécia. Apesar dos notórios méritos, Protágoras e seus discípulos teriam sido expulsos do foro de Atenas por Sócrates que, também usando de sua influência pessoal (filho nato da Grécia, herói de guerra, professor de muitos e proprietário de terras), destruiu a sua imagem profissional e as suas obras. Eis como a mentira dita repetidas vezes, principalmente quando divulgada por pessoa convincente ou influente, pode passar a ser tida como verdade, transformando o bom em ruim, o culto em analfabeto, ou vice-versa. Goebbels sabia disso…

De fato, no dizer de Marcos Rey: “O êxito literário fica um pouco na razão direta das amizades do peito e da quilometragem promocional”.

Em conclusão: adoto a magistral assertiva do já citado professor e sociólogo norte-americano Steve Fuller: “Os verdadeiros filósofos evitam tanto o otimismo empresarial (meio explorador), estimulado por Protágoras, quanto o pessimismo paranoico (meio inquisidor), a que Sócrates era propenso. Aqueles que não conseguem navegar entre esses dois extremos formam a fileira dos meros intelectuais”.