Meros intelectuais (1)

18 de março de 2025 Off Por Funes Patos

Meros intelectuais (1) Por Adalberto Targino.

Texto extraído da coluna FUNES do Jornal A União publicado na data de 14/03/2025.

 

Grosso modo, intelectual é o indivíduo que vive da atividade intelectiva/cognitiva ou a ela se dedica. Pode ser a pessoa dada ao estudo literário ou científico, independentemente da intensidade ou profundidade a ele dispendido.

Intelectualismo é definido pela maioria dos léxicos como sendo “a predominância num sistema ou num tipo de cultura, dos elementos racionais, isto é, da inteligência e da razão”.

Nesse diapasão e linha de abrangência, o crítico literário (mesmo sem produção própria), o artista plástico, o hermeneuta ou intérprete das leis (aí inclusos os operadores do Direito no nível de jurisconsulto, magistrado, representante do Ministério Público, professor de Direito, etc), o historiador, geógrafo, filósofo, sociólogo, antropólogo ou pesquisador em geral, podem — e devem — ser inseridos no elenco dos intelectuais, isto é, dos que se dedicam aos elementos racionais, ao cultivo da inteligência e do entendimento literário ou científico.

Desse modo, o intelectual é aquele que vive do ou para o intelecto. Intelectual, em princípio, não significa gênio da literatura, cientista renomado, escritor famoso.

Latu sensu, o modesto cantador de viola, que vive do seu improviso poético; o compositor de músicas eruditas ou populares; o cronista, o teólogo de qualquer credo; o filósofo diplomado ou autodidata; o poeta clássico, modernista ou de qualquer escola. Todos, indistintamente, dedicam-se à intelectualidade, ao intelecto ou às faculdades intelectuais.

Ademais, a aferição do intelectual e de sua obra independe do aplauso ou vaia de uma elite dominante momentaneamente. Inúmeros escritores, poetas, pintores, tiveram a sua produção intelectual rejeitada e recebida com zombaria ou total indiferença, durante anos seguidos, e somente depois de transcorrido muito tempo de sua morte é que foram reconhecidos e ovacionados.

Afinal, nenhum trabalho intelectual é tão esplendoroso que não contenha falhas, equívocos ou erros. E, por conseguinte, objeto de críticas, às vezes, ferozes. A perfeição é dom divino e a unanimidade, segundo Nelson Rodrigues, é um ato de burrice. A versatilidade na busca do saber é tão valiosa quanto a produção do conhecimento.

Segundo os gregos antigos da Escola Socrática, o verdadeiro saber está mais nas perguntas bem formuladas do que nas respostas memorizadas.

Nessa cordilheira, indago: quem foi o maior filósofo da terra? Sem dúvida, Sócrates. Aliás, um simples soldado aposentado e proprietário de terras, com uma vida pessoal desestruturada, que jamais escreveu nada e nunca pertenceu a nenhuma escola ou academia, exceto a dele. Esse autodidata, avesso à gramática e à escrita, foi o mestre-mor da filosofia grega. No seu nível intelectual e com formação idêntica (sem aprendizado acadêmico e sem livro escrito) foi o grande Pitágoras.

Jesus, o saber supremo e a oratória inigualável, tido como Deus-Homem por mais de um bilhão de seres humanos e respeitado por todos os seres viventes como sábio, filósofo e, portanto, intelectual, nunca escreveu uma linha ou concluiu curso de qualquer natureza, diferentemente dos seus opositores fariseus, sacerdotes, escribas e doutores da lei.

Assim, da informalidade, da simplicidade e da ausência de estrangeirismos, afetações e preciosidades, surge a verdadeira criatividade intelectual.

Se um intelectual insiste em comunicar-se num jargão que não pode ser compreendido, exceto por “doutos e letrados”, então o leitor tem o direito de concluir que o intelectual está disfarçando sua ignorância ou revelando seu desprezo. De igual modo, revela-se pedantismo elitista ou blefe a exigir uma formulação alternativa e fundamentada. Mesmo porque todos os leitores são igualmente importantes, não somente por princípio político, mas, essencialmente, por princípio epistêmico.

Os intelectuais produzem conhecimento e o público decide o que fazer com ele, valorando-o ou desprezando-o.

Karl Popper esclarece que uma reivindicação do conhecimento é sempre um apelo à autoridade, o que quer dizer que, se alguém declara saber algo, está procurando deferência à sua autoridade. Para tanto, o intelectual autêntico e respeitado é o que transmite sem complicações e preciosismos, podendo ser compreendido pelos não especialistas.

A simplicidade — saber que sabe apenas uma partícula do imenso saber humano — e a humildade — valorizar o outro e mudar de opinião se necessário — são os alicerces do intelectual verdadeiro. Sem esses requisitos, aliados à independência preconizada por Immanuel Kant, o intelectual corre o risco nefasto do alinhamento político incondicional como dos filósofos Georg Lukács (húngaro) e Martin Heidegger (alemão) que, respectivamente, foram defensores intransigentes dos genocidas Stalin e Hitler. Para eles, ambos eram heróis…