Lembretes, notificações e distrações

4 de abril de 2025 Off Por Funes Patos

Lembretes, notificações e distrações Por Bruno Almeida.

Texto extraído da coluna FUNES do Jornal A União publicado na data de 04/04/2025.

 

O despertador tocou. Antes mesmo de abrir os olhos, minha mão já tateava o celular na mesa ao lado da minha cama. A tela brilhou, iluminando o quarto ainda escuro. Dez notificações. Notícias do mundo, mensagens de trabalho, promoções de lojas que nem sei como conseguiram meu número.

Levantei-me e fui direto ao café, o celular em uma mão, a xícara na outra. Enquanto o café esfriava, eu rolava a tela. Manchetes sobre crises, escândalos, guerras. O mundo parecia explodir lá fora e, ainda assim, aqui dentro, tudo seguia igual. O sol nascia sobre os telhados da minha querida Pombal, e as ruas começavam a ganhar movimento.

A cidade, pequena, já não era mais a mesma. A globalização nos alcançou sem pedir licença. Hoje, todo mundo anda apressado, grudado nas telas, falando de tendências que vêm de bem longe, mas que ditam nosso dia a dia. O agricultor que antes se orientava pelo céu agora consulta a previsão do tempo no celular. O comerciante da esquina sofre com os preços definidos por mercados que ele nunca pisou. As conversas nas calçadas foram substituídas pelos áudios de WhatsApp. “Manda áudio!” é o que se houve por aqui. Tudo mudou — e eu também.

Saí para trabalhar. No caminho, entrei na padaria, onde, antigamente, todo mundo parava para conversar — saudades do Veber, o Dr. Pão. Sentei, pedi um café e, sem perceber, peguei o celular de novo. Como um reflexo. Uma necessidade inventada.

Foi quando faltou internet. Um apagão temporário. O 4G morreu. De repente, eu me vi sozinho, sem notificações, sem notícias, sem distração. No começo, foi incômodo, como se algo essencial me faltasse, mas então, pela primeira vez em muito tempo, olhei ao redor.

Na mesa ao lado, seu João, velho aposentado, mexia no açúcar do café com calma, olhando o movimento da rua. No balcão, Patrícia, que sempre me atende muito bem, comentava sobre a chuva que chegaria à tarde, enquanto alguém falava sobre o novo preço da farinha, da gasolina e do café. Tudo seguia como antes…

Foi quando lembrei de um poema de Manoel de Barros:

“O olho vê, a lembrança revê e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo”.

Ali, sem internet, sem pressa, eu transvi. Vi o que estava diante de mim o tempo todo: a vida acontecendo sem precisar de filtros, sem precisar ser validada por curtidas. Sem conexões artificiais. Han tem razão, o excesso de estímulo e informação nos afasta da profundidade. Vivemos um ritmo frenético, mas para onde estamos indo? Sem pausa, sem silêncio, a vida se torna só um amontoado de dias sem peso, sem significado. Sem beleza.

O sinal da internet voltou. O celular vibrou. Mas, dessa vez, não olhei. Peguei minha xícara de café e simplesmente fiquei ali, respirando, ouvindo as conversas, vendo o mundo sem pressa.