Tempos de amores líquidos

28 de março de 2025 Off Por Funes Patos

Tempos de amores líquidos Por Bruno Almeida.

Texto extraído da coluna FUNES do Jornal A União publicado na data de 28/03/2025.

 

No meio de um café apressado, enquanto as notificações piscam na tela como pequenos chamados de urgência, me pego pensando sobre a fragilidade dos laços que construímos. Relacionamentos vêm e vão com a mesma velocidade com que deslizamos o dedo para a direita ou para a esquerda em aplicativos descartáveis, efêmeros, líquidos. E, nesse movimento contínuo, me pergunto: onde está o amor nisso tudo?

A palavra me escapa, porque “amor” parece ter se tornado um conceito tão desgastado, tão volátil, que já não sei se sabemos o que ele realmente significa. É aí que lembro de um termo antigo, de um tempo em que as palavras tinham peso: “ahavá”.

No hebraico, ahavá não é apenas um sentimento. Não é essa paixão súbita que arrebata e depois some, nem o desejo fugaz que acende e apaga sem deixar vestígios. Ahavá é, antes de tudo, uma escolha, uma ação. É o amor construído na prática, na dedicação, no compromisso diário. É aquele que não depende apenas de emoções voláteis, mas se fortalece no cuidado, na presença e na disposição de estar mesmo quando a euforia passa.

Mas vivemos tempos difíceis para esse tipo de amor. Bauman chamou nossa era de “modernidade líquida”, e não há termo mais apropriado para descrever os relacionamentos contemporâneos. Tudo escorre pelas mãos: as pessoas, os
afetos, as promessas. A liquidez nos dá uma falsa sensação de liberdade — a possibilidade infinita de escolha —, mas nos condena à superficialidade. Trocamos profundidade por variedade, permanência por novidade, compromisso por conveniência.

Nesse cenário, ahavá parece quase uma resistência. Porque amar, na sua forma mais plena, exige tempo, paciência e vulnerabilidade — três coisas que nossa pressa moderna desaprendeu a valorizar. Ahavá não é o amor que acontece apenas quando é fácil ou conveniente; é aquele que permanece quando a empolgação inicial se dissipa e o outro se revela em suas falhas e fragilidades. É o amor que constrói, não o que consome.

Mas será que ainda sabemos amar assim?

Nas redes sociais, vendemos versões editadas de nós mesmos, esperando ser desejados, mas temendo ser conhecidos de verdade. Nos aplicativos de encontros, escolhemos pessoas como quem monta um prato num buffet — descartando aquilo que não agrada de imediato. Queremos conexões, mas sem o peso dos vínculos. Desejamos a presença, mas fugimos da permanência.

E, no meio disso tudo, ahavá se torna um desafio. Porque amar, no sentido mais profundo da palavra, significa aceitar a imperfeição — tanto a nossa quanto a do outro. Significa investir quando a excitação diminui, dialogar quando o silêncio pesa, ficar quando tudo dentro de nós pede fuga. Amar é cuidar, construir, ceder, recomeçar.

É por isso que o amor líquido se expande tanto em nosso tempo: ele exige pouco. Não precisa de raízes, não precisa de entrega, mas também não alimenta. É água que escorre e não sacia.

Ainda assim, há quem resista. Há quem busque ahavá, mesmo sem saber nomeá-lo assim. Há quem entenda que amar não é só sentir — é fazer. É decidir, todos os dias, ser presença real em um mundo cada vez mais ausente.

Bauman: “modernidade líquida” é termo apropriado para os relacionamentos de hoje